Sessão de apresentação dos livros Um dia tudo isto será meu [uma antologia] de João Habitualmente e Uma Falha nos Dentes , de João Gesta. Com Adolfo Luxúria Canibal

Sessão de apresentação dos livros Um dia tudo isto será meu [uma antologia] de João Habitualmente e Uma Falha nos Dentes, de João Gesta.
Com a presença dos autores e moderação de Adolfo Luxúria Canibal.

Wook.pt - Um dia tudo isto será meu
Um dia tudo isto será meu [uma antologia]
de João Habitualmente

Há na poesia de João Habitualmente uma impressão de ironizar tudo em favor de certa nostalgia. Não é imediato. Vamo-nos inteirando de seu espírito lentamente, disfarçado como está numa contida desgraça também cómica.

Pode acentuar-se nos poemas em que as moças, a palha e os campos seguem um imaginário algo antigo. Sabemos das aldeias como do lugar onde a verdade morreu.

O jeito de Habitualmente é muito específico. Produz um efeito quase mal-educado, um impropério ou modo de se marimbar, que fere os poemas na sua rama mais lírica, por vezes meio romântica, a prometer desfechos bem comportados que nem sempre se consumam.

Temos constantemente a sensação de o poema ser devorado pelo golpe do que não se domina, uma inclinação para que se diga de modo armado, perigando a condição do poeta e denunciando a desfaçatez do mundo. Todas as figuras são dignas de serem, a um tempo, maravilhosas e terríveis. Todas podem tornar-se risíveis.

É talvez o traço mais constante da poesia de João Habitualmente, a assunção da falha. Algo que poderia ser imaculado mas que, por azar da extrema realidade, se vulnerabiliza. Como aquela história da educação. Tem tudo para ser irrepreensível, de uma cultura e elegâncias inestimáveis mas, aqui e ali, não contém a limpidez do protesto. A limpidez da catarse. Fá-lo brilhantemente. Protesta, insulta e ama brilhantemente.

por Valter Hugo Mãe, coordenador da coleção elogio da sombra


João Habitualmente
nasceu no Porto em 1961 e vive em Gaia. Publicou os primeiros textos na revista Pé-de-Cabra em 1984, onde era Célio Lopes na prosa e João Habitualmente na poesia. Com o fim da revista em 1992 desaparecia também o Célio Lopes. Em 1994 surgem os dois primeiros livros de poesia, Os sons parados e Agradecemos (reunidos no mesmo volume) e o último em 2016, Poemas físicos da frente para a retaguarda na curva interior da estrada. Pelo meio aparecem Os animais antigos (2006), De minha máquina com teu corpo (2010) e Poemas em peças (2014). Da participação em obras coletivas destacam-se Diga 33 – os poetas das Quintas de Leitura (2008), Antologia da cave – 25 anos de poesia no Pinguim café (2013) e As vozes do silêncio (2017).
O seu percurso mostra no entanto desobediência aos géneros literários, recusando a fidelidade a algum deles. É assim que publica conto (Os pulsos fistréticos – contos maléficos, 2016), microficção (Notícias do pensamento desconexo, 2003 e Mais notícias do pensamento desconexo, 2014), diário (Coisas do arco da ovelha – pequeno tratado do banal familiar, 2014), cadernos de viagem (Pelo Rio abaixo – crónica duma cidade insegura, 2001) e crónica jornalística (Escrita perecível, 2007). Estes dois últimos têm a assinatura de Luís Fernandes, mais próximos que estão da atividade profissional do autor enquanto psicólogo e especialista do comportamento desviante, área que ajudou a fundar em Portugal, e enquanto cronista de imprensa (O Comércio do Porto no final dos anos 90 e O Público entre 2002 e 2006).

Wook.pt - Uma falha nos dentes
Uma Falha nos Dentes
de João Gesta

«O que João Gesta escreve é eminentemente resistência, uma natureza avessa, coisa da contracultura que não se apazigua, não se disciplina. O seu efeito não é atinente ao arrumado pelas classificações comuns, sua poética é apoética ou disfarçada de parangona, protesto de parede, boato nada dissimulado.

A obra discreta de João Gesta representa um dos casos mais genuínos de coerência na corrosão do politicamente correcto. A ironização profunda da realidade, incluindo-se nas figuras sempre falhas e de que o mundo se faz, o seu tom impiedoso é sobretudo uma forma de terna desconstrução. Seu humor é sem violência, muito ao contrário, aqueles a que alude mais quer dominar sexualmente do que eliminar da face da terra.

A sexualidade sinuosa, meio a prometer em cada verso, é fundamental para se entender quanto sua intenção é tanto um modo de desmascarar quanto de sedução e, nesse sentido, verdadeiramente não há opostos, proscritos ou santos. Tudo converge e pode participar, todos convergem e podem participar e ser amados. A mundividência de João Gesta não admite preconceitos como, desde logo, não aceita pudores entre a erudição e a coloquialidade. Da política à música, da espiritualidade à poesia, a vida pousa toda no livro de Gesta sem tretas.

Na tradição de O'Neil ou César Monteiro, a espaços, acompanhado por Daniel Maia-Pinto Rodrigues, João Habitualmente, Regina Guimarães ou Nuno Moura. João Gesta é mestre da mais séria cerimónia, a que lida com seus convidados a nu.»

Valter Hugo Mãe


João Gesta

1953. Há anos assim…
Avençado e, poucas vezes, avançado esquerdo.
Acredita em Deus e na Revolução, não necessariamente por esta ordem.
Já escreveu seis livros de fricção, organizou duas colectâneas poéticas e, ao serviço da Câmara Municipal do Porto, programa desde 2002 o ciclo literário “Quintas de Leitura”.
É trotskista, leixonense e benfiquista. Reconhece que está longe da perfeição.
Toma, ao acordar, Spasmomen, Candesantan, Pantoprazol, Zyloric e Centrum 50 +. Só depois se aventura triunfalmente à estrada, rumo ao Silo Auto. Vai em breve aderir ao Dolviran e à Angelina Jolie. A quinoa ficará para mais tarde.
No dia 25 de Abril de 2013 foi distinguido com a Medalha Municipal de Mérito – Grau Prata da Cidade do Porto. Ficou orgulhoso e foi festejar para o Lingerie.
Quando for grande quer ser Ministro do Ar e Mar Adentro. Os primos ficarão à porta.

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